segunda-feira, 9 de março de 2009

Sempre mais.

Um dia me disseram que não se pode prender borboletas. Que elas são tão ligadas à liberdade que não suportam o confinamento e logo morrem. Mas nunca tinha entendido o propósito de se prender uma, não até agora. Pra mim as borboletas quando confinadas perdiam sua beleza, o charme da sua dança entre flores e raios de sol. Só que existem borboletas e borboletas, cada uma com sua cor, seu tamanho e seu bater de asas. Cada uma com o poder de enfraquecer o coração de qualquer desprevenido.
Confesso que nunca fui uma pessoa muito prevenida, nunca gostei de vestir muitas couraças. A nudez da alma é uma exposição pela qual se paga caro, não há muralhas para serem erguidas e o peso a se carregar é menor, mas essas mesmas muralhas são as que nos protegem, nos deixam menos vulneráveis. E foi exatamente pela falta dessas muralhas que uma coisa colorida, qualquer coisa entre o azul e o verde com detalhes pretos me jogou no chão, sem qualquer chance de defesa, muito menos de fuga.
Durante vários dias as horas passadas ali olhando aquele ser de quase 5 cm eram as melhores horas do dia. Era fascinante ver como as cores misteriosamente se fundiam dependendo do ritmo do bater de asas, ou do ângulo que os raios de sol incidiam, ou das flores em que ela estava. E então quando ela resolvia dar um presente maior do que a sua simples visita, ela me pousava na mão e ficava ali por alguns simples segundos. Mas era o bastante pra me fazer prender a respiração e querer quase evitar os batimentos do coração. E depois disso ela ia embora e me deixava ali, o coração disparado, a respiração ofegante. Quase como se tivesse corrido 10 km. Quase como se quisesse voar com ela.
Mas então chegou o dia em que somente as suas visitas já não eram o bastante. Era necessário mais do que somente ver aquela maravilhosa dança entre o meu jardim. Eu passei a querê-la pra mim, passei a desejar que ela somente existisse para o meu jardim e para o meu olhar. Passei ainda vários dias me lembrando do que me disseram um dia.

...não se pode prender borboletas. Elas são tão ligadas à liberdade que não suportam o confinamento e logo morrem.

Mas eu não me importava mais com isso. Eu queria que ela fosse só minha e pronto. Nem que fosse por um só dia. Um só dia com ela e eu a deixaria ir, sem ter que voltar mais ao meu jardim.
E então eu esperei. Esperei que ela viesse de novo pra mim, que pousasse na minha mão. E então a prendi. Tive o cuidado de preparar o melhor cativeiro que uma borboleta poderia estar. Era quase como uma aquário. Um aquário para borboletas.
E então cada minuto que ela esteve ali, existindo pra mim, batendo as asas pra mim, fazendo aquela dança que me hipnotizava, eu também existi pra ela. Eu também mantive meus olhos somente pra ela. E como pra contrariar o momento, as horas passaram mais depressa do que eu pude notar. Logo já tinha anoitecido e eu tinha prometido a mim mesma que iria soltá-la. Não queria que ela morresse. Isso seria ainda pior do que não vê-la mais.
E então a deixei ir. E ela voou, voou por entre a noite até que eu não pudesse mais enxergar.
Antes de prendê-la, cheguei a pensar que depois de tê-la pra mim por um dia inteiro, eu teria me satisfeito. Que eu acabaria com aquela obcessão que me consumia horas do dia. Mas o que eu não imaginava é que eu ficaria ainda mais obcessiva. Aquele dia inteiro passado com ela ali tinha me feito tão bem, tinha enchido a minha casa de uma felicidade e de uma paz que eu não via há muito tempo.
Agora eu penso em cada minuto naquelas 3 cores. Penso em cada instante como seria se ela aceitasse viver pra mim também, assim como agora eu vivo pra ela. E eu fico aqui, olhando da janela as flores do jardim. Vejo algumas vezes que ela ainda passa por ele, não se demora mas ainda sim se mistura às minhas tulipas brancas.
Fico aqui observando enquanto não descubro uma maneira de trazê-la pra mim.
De trazê-la pra sempre.

6 comentários:

Rafael disse...

hummm...
borboletas!
belo texto =D

=*

Cris disse...

Ahhh então vc entende de borboletas?!

Poucas coisas são tão livres quanto as borboletas... o amor ... e o vento...

Carol disse...

Que delícia de texto!
Prendi a respiração...como se estivesse com uma borboleta em minhas mãos...as cores...o bater das asas...tudo foi possível ver!
Pena que a liberdade das coisas que amamos não significa a nossa liberdade...seria tão gostoso amar alguma coisa pelos simples fato de ser livre...
Beijão Kaká!
Saudades

Adrielly Soares disse...

É tão impossível não querer prender uma borboleta dessas num potinho. É uma pena que algumas criaturas como as borboletas não suportem a sensação de aprisionamento. Coisa mais obssessiva essa mania que a gente tem.

Texto muito bem escrito, amiks.
Seus textos são sempre muito gostosos de ler.
*-*


=*

NeW disse...

realmente... por alguns instantes, mas apenas por alguns instantes, cheguei à pensar que aprisionar uma borboleta me satisfaria...
mas logo me veio à tona que elas nasceram para ser livres e que a verdadeira liberdade está em escolher se aprisionar em um outro jardim...
talvez por nascerem presas em um casulo, ao sair as borboletas procuram tanto pela felicidade...
mas não quer dizer necessariamente que elas não queiram deixar se prender novamente um dia num outro jardim, tão belo e raro que as façam esquecer que existem outros jardins...
borboletas e jardins... liberdade e amor... estão tão ligados um ao outro que fica difícil enxergar a fronteira entre eles.
Adorei o texto!
Bjo!

NeW disse...

realmente... por alguns instantes, mas apenas por alguns instantes, cheguei à pensar que aprisionar uma borboleta me satisfaria...
mas logo me veio à tona que elas nasceram para ser livres e que a verdadeira liberdade está em escolher se aprisionar em um outro jardim...
talvez por nascerem presas em um casulo, ao sair as borboletas procuram tanto pela felicidade...
mas não quer dizer necessariamente que elas não queiram deixar se prender novamente um dia num outro jardim, tão belo e raro que as façam esquecer que existem outros jardins...
borboletas e jardins... liberdade e amor... estão tão ligados um ao outro que fica difícil enxergar a fronteira entre eles.
Adorei o texto!
Bjo!