8 ou 80

quarta-feira, 7 de março de 2012

Faz tempo que não escrevo. Acho que perdi o jeito, perdi a dor incessante no peito. Não. Acho que não perdi. Me anestesiei. É estressante sofrer tanto sempre pelas mesmas coisas mudando sempre atores e personagens. Tem coisas que são tão intrínsecas à sua personalidade que você tem que escolher: ou morre de agonia, ou esquece. Decidi esquecer o meu desespero de tudo, a minha afobação descontrolada, minha vontade de engolir o mundo só pra mantê-lo pra sempre dentro de mim. Me descobri mais calma, mais serena, mas também mais apática, como alguém que parou de correr e agora espera tediosamente o ônibus passar, se passar.

Mas eu não gosto desse novo eu, dessa nova pessoa que prefere não desejar pra não se contorcer depois na espiral de ansiedade. O que me fez descobrir que não existe uma zona de conforto pra mim, assim como não existe o meio termo das coisas. Se existem, ainda não consegui encontra-los, nem dentro nem fora de mim.

Dizem que estar fora da zona de conforto é a melhor situação para se estar pois é nela que você busca incessantemente mudanças, melhorias e evoluções para sua vida. Bom, deve ser por isso que estou sempre rodopiando feito um pião sem rumo, procurando novos lugares, pessoas e coisas novas pra viver sem nunca encontrar a razão ou algo que cesse essa vontade.

Dentro desse ciclo 8 ou 80 da minha vida, decidi que não quero ser o 8 e enquanto eu não conseguir achar outra saída, serei pra sempre 80. Eu quero amar demais e descontroladamente até que meu coração se sinta amado o bastante pra se sentir sereno, quero viver intensamente até que a mais calma rotina seja tão completa para mim que as mais banais atividades me satisfaçam. Quero viajar de canto a canto do mundo até que algum lugar me acolha tão bem que eu não sinta a necessidade de estar em nenhum outro.

Estou querendo muito e pra sempre. Estou querendo quase tudo e ao mesmo tempo. Percebo então que já sou 80 de novo e que a montanha russa de ansiedade já voltou a rodar no meu estômago. A dose de anestesia acabou e agora as dores do mundo voltaram para me dizer que é assim que tem que ser. Intenso, dolorido e, de um certo modo, muito mais prazeroso.

Mapa mundi.

segunda-feira, 20 de junho de 2011
Passei esse fim de semana inteiro sentada na frente do computador, conversando um milhão de abobrinhas com meus amigos de intercambio, que estão hoje cada um em um canto do mundo, rindo horrores e colocando fotos e vídeos hilários no grupo comum que foi criado. Foi tão natural e simples passar a tarde ali sentada abrindo foto a foto de cada álbum e comentando cada uma com todos eles do mesmo modo como a gente fazia antes, que cheguei mesmo a pensar por alguns minutos que eu ainda estava dentro do meu micro quarto e que minutos depois minha colega de quarto ia irromper pela porta me apressando pra me arrumar e sair.

Foi tanta nostalgia que quando desliguei o computador fiquei achando que me faltava alguma coisa. Olhei pro lado e não reconheci nada daquilo, não me vi pertencendo a nada, nem a lugar nenhum.
Muito estranho esse sentimento de que não se pertence a lugar nenhum. O que, no meu caso, me causa um certo sentimento de culpa já que era de se esperar que eu me sentisse confortável dentro da minha própria casa, ao lado dos meus familiares. Pelo menos é o que se espera de todo bom filho. Não me entendam mal, eu amo meus pais e minha irmã e adoro a companhia deles, não sou nenhuma Suzane Richthofen e também não vou dizer que não sentia saudades de casa quando estava longe. Mas era uma saudade amena, suave, "uma saudade querendo querendo, querendo ir e querendo ficar".

Tenho hoje uma vontade absurda de mudança, de me sentir de novo a cada mês deslumbrada com alguma novidade. Vim a descobrir que se eu já não gostava de rotina antes de Portugal, agora ela é quase insuportável. Vim a descobrir também, que algumas das nossa vontades são imaturidades, ou simples fases, outras vêm da nossa camada mais profunda, do seu interior. É o que você é e nunca vai poder mudar. Passei muito tempo achando que relacionamentos longos eram perda de tempo e que nunca iria construir um, mas hoje sinto falta de alguém para compartilhar coisas simples do dia a dia. Do mesmo modo eu tinha a vontade de conhecer o mundo, de saber como é viver sozinha, de sentir a liberdade no mais alto grau que alguém na minha idade poderia experimentar e achei que, assim como todas as minhas fases, depois que voltasse do intercâmbio essa vontade também iria passar.

Para desespero da minha mãe, não era só uma fase, ou se é ainda não passou, e eu ainda sinto que não posso morrer sem colocar um dedo mindinho que for em alguns lugares do mundo. Digo para o desespero dela, pois ela sempre me achou um jogo perdido. Do mesmo modo que era de se esperar que eu me sentisse confortável de volta em casa, também era de se esperar que como qualquer mulher, meu sonho fosse encontrar o amor da minha vida, casar, ter filhos e ser feliz para sempre. Não sei o quanto disso ainda faz parte dos sonhos da maioria das mulheres de hoje em dia e o quanto disso já foi dissipado pelo pensamento feminino moderno, mas não é assim que eu me sinto. Enquanto a minha irmã tem horror em pensar em se casar depois dos 20 anos, e tem como o maior sonho ter um filho, eu, com meus 22, tenho como maior sonho ter uma casa só pra mim, um quarto com uma cama gigantesca e com uma parede inteira pintada com o mapa mundi onde eu colocarei fotos de cada lugar que eu já visitei e irei visitar.

Não quero uma casa enorme, com jardins, piscina, carro importado (claro que também não iria reclamar se tivesse). Quero um lugar seja o meu refúgio, um lugar só meu, familiar, que me mostrará que o desconhecido é sempre bom, mas voltar para algum lugar é essencial, que ele seja o meu ponto de equilíbrio. Quero uma viagem por ano, no mínimo, para algum lugar distante e desconhecido. Quero conhecer pessoas que falam outro idioma, que vivem outra realidade, com outra cultura, outros costumes, outros gostos. Que me ensinem músicas e danças novas, a gostar de comidas apimentadas e de saber apreciar um bom vinho.

Quero o mundo na palma das minhas mãos e sinto que querer isso é tudo que não esperam de mim. Penso todos os dias que esse meu desespero de tudo um dia vai passar, mas penso com pesar. Não sei o que dói mais: querer ir, ou querer ficar.

Maktub

terça-feira, 24 de maio de 2011
Faz dias que ando me sentindo mais leve. Desde que me entendo por gente sempre carreguei o mundo nas costas e a culpa no coração. Sempre, por mais que os fatos tenham ocorrido por um milhão de fatores em que eu não pudesse fazer nada a respeito, eu conseguia achar uma brecha em que eu me encaixava e dali buscava a responsabilidade de tudo pra mim. Como se o mundo dependesse da minha existência, como se eu pudesse mudar tudo em um único instante.

Tem gente que vive sempre de vítima da situação, sempre acha que é o karma, que não era pra ser, que o horóscopo do dia não estava bom, a chuva atrapalhou, enfim, maktub. E há pessoas como eu, que insistem em achar que poderia transformar tudo em rosas se não fosse a sua enorme culpa de tudo. Preciso dizer que andei muito mal com esse peso nas costas e que, na verdade, ainda não me livrei dele por inteiro, ainda não aprendi a analisar os fatos sem me achar um pouco Deus. Preciso dizer também, que não sou totalmente vítima da situação, que nunca fui anjo e também nunca aprendi a ser menos impulsiva e parar para analisar as consequências dos meus atos. Fiz muita coisa de que me arrependo e de que acho, hoje, que foi desnecessário, mas também fiz muita coisa louvável e que nunca deram a merecida atenção.

O fato é que desde sempre somos analisados, prioritariamente, pelos nossos erros. Não importa se você sempre foi um amor de pessoa, o dia que você pisar na bola com alguém é isso que sempre será lembrado quando alguma discussão começar. Nunca que você mandou flores naquele dia em que ela estava triste no trabalho, nunca naquele dia que você passou a noite no hospital com ele porque a mãe dele estava doente. Mas sempre porque você esqueceu uma data importante porque estava com a cabeça a mil de coisas no trabalho.

E então, pra cada vez que alguém me punia por causa de algum erro meu, eu me punia o dobro a mais. E eu comecei a viver do que não aconteceu, comecei a chorar pelo tempo que poderia ter sido e não foi, comecei a viver de lembranças inventadas. E a cada vez que eu imaginava um futuro bom, eu me machucava mais de culpa por não ter deixado ser, por não ter conseguido construir esse futuro. E isso é um ciclo vicioso. Quanto mais você se pune, mais vive de ilusão e mais se culpa.

Passei muito tempo assim, me fazendo de Deus, querendo mandar no universo e nas situações, tentando reverter situações irreversíveis e piorando tudo cada vez mais. Até que alguém um dia me deu um tapa na cara e uma sacodida da consciência. E, sem ao menos saber de um milésimo da minha vida, me disse pra ser menos pretenciosa, pra parar de achar que o mundo gira em torno do meu umbigo e que eu não tenho o poder de mudar o universo. Que as coisas acontecem por fatores que as vezes a gente desconhece e que não dá pra manipular tudo.

Apesar de ter ficado muito furiosa com o comentário e ter saído com fogo nos olhos, finalmente entendi o que me foi dito. Finalmente compreendi que a vida é uma via de mão dupla, que as nossas ações possuem impacto sobre os acontecimentos mas são apenas mais uma das tantas variáveis. Que eu posso controlar o que falo, mas não posso assegurar o que vai ser ouvido.

Estou me sentindo mais leve. Por que a vida depende de mim e de você e isso é, simplesmente, maravilhoso.

Paz.

sexta-feira, 13 de maio de 2011
"Não tem nada em paz aqui dentro. Nada, nada. Um turbilhão de coisas se passa pela minha cabeça, me movimenta, me agita, me deixa sem sossego. E eu tento resistir, colocar um sorriso na cara e levantar todo dia, cumprir meu papel, fazer meu trabalho, ajudar quem precisa. Mas esqueço de mim. Preciso tanto de ajuda. Ser mais calma, ser mais clara, ser mais rara."
Clarissa Corrêa.

E tem mais hoje, tem mais trabalho, mais faculdade e mais e mais. Tem sempre mais alguma coisa e mais um sorriso no rosto e uma vontade de ser sempre agradável, de sustentar esse modo de estar sempre feliz, e sorridente, e animada. Mas tem sempre o momento em que você se deixa escapar, tem sempre os minutos em que o sorriso desaparece, a animação foge e tudo que se quer é um abraço que diga que é humano chorar. Não é sempre tão fácil descobrir quando é que esses momentos virão, ou quando o sorriso é só pano quente.

E não venha me dizer o quanto manter isso me faz mal, não venha me dizer que não sabe como eu consigo conter aqui dentro tanta coisa, sendo sempre tão intensa, tão dramática. Nem eu sei. Aliás, sei. Minha mãe vive me dizendo que eu não sou tão rocha quanto pareço e que apesar do sorriso, pra saber se ando nervosa ou não, basta olhar as minhas unhas. Péssimo hábito, inclusive. Além de ser porco, denuncia a ansiedade que tento, inutilmente, esconder.

Eu sou nervosa sim, sou ansiosa e meu coração bate mais forte cada vez que estou prestes a fazer alguma coisa que me importo o bastante, ou quando estou esperando. Esperando alguém chegar, esperando um abraço, um sorriso. Gosto de manter essa vontade em carne viva de tudo, esse desespero de viver, essa gana de tudo ao mesmo tempo e agora. Gosto de ter meu coração nas mãos sempre que alguém diz alguma coisa bonita pra mim, sempre que sinto que alguma coisa boa está pra acontecer. Não tenho paciência pra esperar que alguém tome a iniciativa, não gosto de esperar alguém fazer alguma coisa que eu mesma posso fazer. Não consigo esperar até amanhã pra saber o por quê alguém agiu estranho comigo, ou por quê alguém não quer me contar alguma coisa agora. Vem, me fala agora. Me conta agora. Vamos pra onde ninguém pode nos escutar. Não, espera, não desliga o telefone. Vou parar na porta da sua casa, ofegante, louca, desesperada e com um gosto de curiosidade incontida e uma paciência de menino pequeno que vive cada dia por si só.

Não existe amanhã. Existe só o hoje e a minha vontade de tudo. Existe o hoje, e meu medo de sentir demais, mesmo já sentindo demais. O medo de me jogar de cabeça de novo e mesmo assim me jogando em uma piscina rasa, pra rachar a cabeça e me esfolar toda. E pra depois continuar sangrando lá embaixo e sorrindo. Sempre sorrindo e com a unha cada vez menor. Existe o medo de falar demais, mesmo já falando demais. Existe o medo de demonstrar sentimentos, de traduzir tudo isso em palavras. Existe o medo de falar eu te amo e não escutar nada em resposta. Existe o medo de escutar eu te amo e não saber retribuir tudo isso. Existe medo demais e máscaras demais.

Não sou a pior das pessoas, muito menos sou tão louca quanto está parecendo. Pra falar a verdade é tudo muito natural quando analisado friamente, tudo faz perfeitamente sentido quando digo que tenho pavor de falhas e por isso me cobro demais. Faz sentido dizer que todos os meus medos, são medos de falhar não com os outros mas comigo mesma. Medo de não ser o amor perfeito pra alguém, medo de não saber retribuir um sentimento grande demais pra não caber no peito. Medo de ter um amor grande demais no peito e não saber o que fazer com ele com medo de falhar.

Mas já tá na hora de parar de me cobrar tanto, de ter medo de mim mesma, de parar de me sabotar. Tá na hora de saber viver intensamente sem rédeas pro coração, e parar de ser intensa de fora pra dentro. Quero aprender a ser sutil, a saber esperar, a saber escutar calmamente um eu te amo e saber falar o mesmo com a mesma calma. Quero aprender a ter paciência de viver, de saber que a vida tem seu ritmo próprio e que as minhas unhas não tem responsabilidade sobre a minha ansiedade.

E então, o mundo vai ser calmo, o céu azul de paz e as minhas unhas vermelhas de felicidade.

A mochila

domingo, 27 de março de 2011
Eu tenho uma mala pra arrumar e muita coisa pra colocar lá dentro. O tempo é curto. É quase hora de ir e não tem nada pronto ainda. Eu adoro esse sentimento do novo, ao mesmo tempo que me assusta ter que deixar coisas pra trás. Tem gente me apressando, e o relógio não para de me dizer que o tempo está acabando. E a mochila é pequena demais. E meu coração grande demais.
As minhas costas estão cansadas de carregar tanto peso. Eu não conseguiria aguentar o peso dessa mochila sobrecarregada de novo. Tira tudo lá de dentro. Algumas coisas terão que ficar.
Não, não é fácil pra mim escolher entre a minha calça velha favorita e uma novinha em folha não tão bonita assim. Também não é fácil deixar pra trás um frasco de perfume velho que eu ganhei de presente da minha avó quando fiz 15 anos.

Mas é que o tempo, o tempo está me dizendo pra correr, pra me apressar por que tem tanta emoção por vir e entenda, se for pra carregar essa mochila sozinha de novo, eu prefiro começar a viagem com ela vazia, por que, eventualmente, ela vai acabar cheia de novo até que um dia eu precise esvaziá-la outra vez ou alguém me ajude a carregá-la.

E que nada, nada seja por acaso.

Que seja doce.

domingo, 23 de janeiro de 2011
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
Engenheiros do Hawaii


Eu me lembro de sentar na varanda de casa nas tardes quentes pra brincar e de como era gostoso sentir o frio da cerâmica em contraste com o calor que sempre fazia. Me lembro de pular corda, elástico. Também me lembro de como isso sempre me rendia alguns machucados e esfoladas. Me lembro de sair correndo no recreio da escola atrás dos meninos que sempre puxavam o meu cabelo. Me lembro de amarrar o cabelo com uma presilha em forma de borboleta. Me lembro de ter uma tiara de florzinhas que brilhava à luz do sol. Lembro do cheiro de bolo de cenoura da minha tia e de como eu sempre comia a cobertura primeiro e depois jogava o resto para o cachorro. Me lembro de passar tardes recolhendo frutos e folhas na casa da minha madrinha pra cozinhá-las depois nas panelinhas de ferro que eram da minha mãe. Lembro de ver inúmeras vezes o mesmo filme de um cachorrinho que saía da fazenda e ia pra Las Vegas, lembro também que naquela época pensava que Las Vegas era uma cidade perto de Uberlândia e que um dia cheguei a pedir pra minha mãe me levar lá. Lembro de um natal pedir pra minha mãe uma avó de presente e depois vê-la chorar sem parar sem entender o por quê. Lembro de ter medo de subir em árvore e mesmo assim subir todas elas só pra provar para os meus primos que eu não era uma menininha medrosa. Lembro de morrer de medo de andar de cavalo, lembro de quebrar um ovo choco na minha cabeça sem querer enquanto estava colhendo ovos no galinheiro com a minha prima. Lembro de acordar cedo na roça e sair correndo pro curral com um copinho na mão e o Toddy na outra esperando o Leite quentinho que meu avô tirava toda manhã. Lembro de fazer cabo de guerra no meio do curral logo depois de acabar de tomar banho e deixar a minha mãe louca de raiva. Lembro acordar aos domingos as 6 da manhã e ligar a tv pra ver Vovó Mafalda. Lembro de ir no circo do Sérgio Malandro e jogar uma torta na cara do monstro. Lembro de ir no show da Eliana e achar que a Xuxa era bem melhor que ela. Lembro que eu tinha uma bota da Xuxa roxa com rosa, que eu usava todos os dias sem exceção. Lembro que eu fazia coleção de discos de Vinil que iam do Balão Mágico a Sandy e Junior. Lembro de saber cantar todas as músicas. Lembro que as minhas maiores preocupações era conseguir ficar mais de uma semana sem castigo.

Lembro que um dia me disseram que era preciso crescer e que eu já estava virando uma mocinha. Lembro de achar toda aquela história de virar uma mocinha muito chato.

Lembro de tudo isso hoje, com muito mais que nostalgia. Lembro com uma vontade enorme de inocência e pureza. Lembro com uma vontade de recomeço.

Valsinha

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011