domingo, 16 de março de 2014

A mala



Com o tempo a gente começa a juntar tralhas. Vai colecionando todo o tipo de coisa: lembranças, cheiros, emoções e jogando dentro da mala da vida. Dentro dessa mala vão coisas boas e ruins, depende do que você deixar entrar e do que quiser manter. Lá dentro está compactado todo o seu passado com as suas lembranças mais doces e as mais arrasadoras e cabe a você decidir como vai carregar todo esse peso.

O problema é que chega um ponto da vida em que a mala se torna muito pesada, continuar a levá-la se torna difícil e você decide que não quer mais aumentar o peso do que está levando.Você começa a pensar comedidamente que tipo de pessoas ou emoções irão entrar na sua vida. Você não pode mais se dar ao luxo de se jogar em uma aventura de peito aberto porque isso seria irresponsável da sua parte em relação à todo o peso que isso poderia acarretar à mala.

O que você não vê, contudo, é que da mesma maneira que se protege para que nenhum tipo de amargura aumente o fardo que está levando você também impede que as coisas boas acrescentem peso. Mas também, como poderia? Você já está quase rastejando com tanto peso dentro dessa mala, uma gota de momentos, felizes que fossem, impediria você de continuar a carregá-la.

Então esse é o momento em que se deve parar pra organizar a sua bagunça. Esse é o momento em que você deverá tirar tudo o que tem dentro dessa mala e analisar cada coisa com carinho. Cada momento feliz, cada sorriso sincero, cada pôr-do-sol, cada beijo quente relembrados com toda a doçura que tem que ser. E recolocados na mala com a paciência e o saudosismo necessários. Vão haver também aquelas tralhas que você não quer ter que se lembrar. Vão haver objetos quebrados, lágrimas odiosas, um pedaço do seu coração que se partiu ainda no seu primeiro amor. Tudo isso também merecerá cada minuto da sua atenção e todo o seu carinho. Tome todo o tempo do mundo e toda a sua força para analisar cada um deles e como eles ajudaram você a chegar onde está. Veja o quanto eles te ajudaram a crescer e não se culpe por aquele dia de stress, por aquela frase dita com raiva ou pelos momentos de covardia. Abrace tudo de ruim, aceite que faz parte do seu passado e, então, jogue-os fora. Tire-os da mala sem ressentimento e sem medo.

Quando acabar de reorganizá-la, se levante e tente novamente colocá-la nas costas. Estará tudo tão mais leve. Não porque agora possui poucas coisas dentro, pelo contrário, enquanto reorganizava você até notou quantos momentos lindos havia esquecido e quanta positividade estava soterrada lá no fundo. Mas sim porque você percebeu que toda aquela tralha suja de mágoa e dor pesa mil vezes mais do que uma vida inteira de alegria.

E agora você pode entender o porquê existem pessoas com malas enormes e ao mesmo tempo se sentindo tão leves. Você consegue entender que pode filtrar tudo aquilo que deseja levar com você pela vida, que isso implicará no peso que estará carregando e que essa decisão é só sua.

E agora, conscientemente, sua.



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