segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Entre o erro e a evolução

Eu sei que as vezes a gente exagera. Também sei que no fundo no fundo não é exagero por si só. Todo mundo carrega dentro de si medos e angústias difíceis de explicar. E mesmo que você tente, o fato é que algumas coisas vão parecer tão simples e patéticas aos olhos dos outros que simplesmente não vai fazer sentido pra outra pessoa. E nem é pra fazer sentido pra outra pessoa mesmo.

Algumas coisas são suas e muito suas. Nem todo mundo vai conseguir entender porque falar no telefone é uma coisa tão insuportável pra você. Aliás, você mesmo pode não entender porque tem essa dificuldade. E você tem duas escolhas: ignora esse problema e segue a vida, afinal, não é atendente de call center mesmo. Ou então decide fazer alguma coisa. Decide mudar.

O processo de mudança nem sempre é fácil. Tem coisas que estão tão enraizadas que são difíceis de sair. São aqueles aspectos seus que você luta, luta, consegue se livrar deles por um tempo até que um dia se surpreende fazendo de novo. É como vício. Você tem que estar o tempo inteiro alerta. Loucura, não?

Tenho aprendido muitas coisas desde o início desse ano, principalmente a me ouvir mais e, até mesmo, a me respeitar mais. Comecei a entender que perder a cabeça as vezes ou ter uma crise de choro é normal. Tá tudo certo. Nada é sem sentido. Antigamente costumava a me ignorar. Ignorava tanto os meus sentimentos e as minhas atitudes que vivia como um trator, passando em cima de tudo, cimentando angústias, medos e inseguranças lá no fundo da alma. Chorar era uma coisa rara e sinônimo de vergonha e fraqueza. Hoje choro vendo filmes de desenho animado e também tenho minhas crises como sempre tive, mas hoje deixo tudo ir embora com uns bons litros de lágrimas. Não vou mentir, ainda carrego um pouco do estigma de que os sentimentos tão à flor da pele significam fraqueza, mas estou me livrando dele pouco a pouco. Todos esses momentos de loucura em que as emoções estão transpirando de você são momentos importantes... eles sempre vêm acompanhados de alguma coisa. Estão sempre querendo te dizer algo que você ainda não percebeu, um problema que precisa ser resolvido, um pedaço seu que precisa ser mudado de dentro pra fora.


Entender isso não é uma das tarefas mais fáceis. Ainda não consigo simplesmente observar um turbilhão de pensamentos e emoções sem me identificar com eles, mas já estou dando meus primeiros passos. Esses dias li: “Reconhecer o erro e procurar uma forma de ser e de se expressar melhor é um ato de coragem e amor. Errar é humano, mas não mudar é falta de amor próprio”. Concordo. Feliz ou infelizmente é errando que se aprende e é preciso um peito aberto disposto a errar pra poder evoluir.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Sobre serenidade


Do lado de fora era só chuva. O tempo atrapalhava todos e quaisquer planos que tivera, mas mesmo assim não conseguia odiar aquele clima chuvoso e frio. Sabia que o momento era de calma e serenidade. Quase dava pra sentir a paz emanando por todos os lados da casa.

Lembrou-se das férias já passadas, lembrou-se dos que deixaram apenas saudades, dos dias, diferentemente daquele, ensolarados, das tardes passadas sem qualquer preocupação, dos sorrisos amigos e dos abraços apertados de quem já nem sabe mais por onde anda. Lembrou-se das dúvidas do passado e também das certezas do presente. Tentou buscar na memória cada dia difícil e dar a cada um deles a sua recompensa. Agradeceu em silêncio cada pequena conquista. E viu, então, mais uma gota cair. Mas essa não vinha do lado de fora e sim de dentro, de um lugar que ela fazia questão de manter bem guardado, intacto, consciente. Aquela gota, sabia, não era de tristeza. Abriu um largo sorriso e deixou que a chuva continuasse do lado de fora, serena como há tantos dias.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Meu menino

Ele tem um olhar doce e um sorriso lindo de menino. Tem os braços grandes que quando me abraça e me aperta, faz o mundo parecer um lugar mais seguro pra gente. Ele olha pra mim e sussurra que me ama e então o mundo para de girar, meu coração descompassa e para de bater por alguns segundos. Minhas pernas ficam bambas e eu explodo por dentro. Pela primeira vez sinto que o amo de verdade. Sinto que ele chegou tão devagarinho e sem fazer barulho que não assustou o meu coração já tão desconfiado. Com a sua calma, ele me acalmou e sua doçura adoçou meu coração já tão doce e tão solitário. Quando vi, já não tinha volta e eu já não tinha medo. Quando vi, sorria com os olhos, o coração e a alma inteira só pra ele.

As vezes olho pra ele e me delicio com o seu jeito descomplicado de ver as coisas. As vezes ele fala algumas coisas com uma maturidade tão grande e ao mesmo tempo tão simples que me assusta. Outras vezes ele diz o que eu to pensando ou sentindo e eu imagino se eu to pensando em voz alta ou se ele simplesmente me decifra tão fácil assim. 

Quando estamos juntos tenho vontade de colocá-lo no colo e dizer tudo de mais lindo que há pra ser dito nesse mundo só pro olho dele nunca parar de brilhar do jeito que brilha quando ele olha pra mim. Então eu percebo que não há palavras. Eu percebo que posso revirar o dicionário de baixo pra cima e ainda sim não conseguiria expressar esse caminhão de sentimento que me transborda aqui dentro. Então eu o abraço forte como nunca abracei ninguém, o beijo da maneira mais doce que já beijei alguém, digo que o amo com uma sinceridade ímpar na minha vida e ficamos ali imóveis e abraçados. Dois corações acelerados batendo num ritmo inexplicavelmente delicioso enquanto desejamos que o tempo passe devagar.

Logo eu, que sempre fui ansiosa, hoje desejo que o tempo passe devagar, que a vida seja esse eterno dia de domingo enquanto eu olho pra você, enquanto eu desejo você, enquanto eu amo você.


domingo, 16 de março de 2014

A mala



Com o tempo a gente começa a juntar tralhas. Vai colecionando todo o tipo de coisa: lembranças, cheiros, emoções e jogando dentro da mala da vida. Dentro dessa mala vão coisas boas e ruins, depende do que você deixar entrar e do que quiser manter. Lá dentro está compactado todo o seu passado com as suas lembranças mais doces e as mais arrasadoras e cabe a você decidir como vai carregar todo esse peso.

O problema é que chega um ponto da vida em que a mala se torna muito pesada, continuar a levá-la se torna difícil e você decide que não quer mais aumentar o peso do que está levando.Você começa a pensar comedidamente que tipo de pessoas ou emoções irão entrar na sua vida. Você não pode mais se dar ao luxo de se jogar em uma aventura de peito aberto porque isso seria irresponsável da sua parte em relação à todo o peso que isso poderia acarretar à mala.

O que você não vê, contudo, é que da mesma maneira que se protege para que nenhum tipo de amargura aumente o fardo que está levando você também impede que as coisas boas acrescentem peso. Mas também, como poderia? Você já está quase rastejando com tanto peso dentro dessa mala, uma gota de momentos, felizes que fossem, impediria você de continuar a carregá-la.

Então esse é o momento em que se deve parar pra organizar a sua bagunça. Esse é o momento em que você deverá tirar tudo o que tem dentro dessa mala e analisar cada coisa com carinho. Cada momento feliz, cada sorriso sincero, cada pôr-do-sol, cada beijo quente relembrados com toda a doçura que tem que ser. E recolocados na mala com a paciência e o saudosismo necessários. Vão haver também aquelas tralhas que você não quer ter que se lembrar. Vão haver objetos quebrados, lágrimas odiosas, um pedaço do seu coração que se partiu ainda no seu primeiro amor. Tudo isso também merecerá cada minuto da sua atenção e todo o seu carinho. Tome todo o tempo do mundo e toda a sua força para analisar cada um deles e como eles ajudaram você a chegar onde está. Veja o quanto eles te ajudaram a crescer e não se culpe por aquele dia de stress, por aquela frase dita com raiva ou pelos momentos de covardia. Abrace tudo de ruim, aceite que faz parte do seu passado e, então, jogue-os fora. Tire-os da mala sem ressentimento e sem medo.

Quando acabar de reorganizá-la, se levante e tente novamente colocá-la nas costas. Estará tudo tão mais leve. Não porque agora possui poucas coisas dentro, pelo contrário, enquanto reorganizava você até notou quantos momentos lindos havia esquecido e quanta positividade estava soterrada lá no fundo. Mas sim porque você percebeu que toda aquela tralha suja de mágoa e dor pesa mil vezes mais do que uma vida inteira de alegria.

E agora você pode entender o porquê existem pessoas com malas enormes e ao mesmo tempo se sentindo tão leves. Você consegue entender que pode filtrar tudo aquilo que deseja levar com você pela vida, que isso implicará no peso que estará carregando e que essa decisão é só sua.

E agora, conscientemente, sua.



terça-feira, 9 de julho de 2013



Tenho tentado manter a calma e o coração quente. Pensar no hoje, nas mãos entrelaçadas, no sorriso deixado sem querer. Quero acreditar, mas sem imaginar demais e isso é quase impossível, eu sei. Então mantenho mais os pés no chão. Vejo o presente e peço ardentemente por um futuro melhor. Peço e tento fazer acontecer. Luto contra a corrente e contra o meu eu frenético que insiste em não querer mudar, aliás, crescer.

Respiro fundo, sorrio. Um sorriso sincero, dessa vez não histérico. Talvez amadurecer seja isso, penso comigo mesma. Aprender a ser serena.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Valsinha

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz"
 
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mantra

Apaga o abajour e deita aqui comigo que o silêncio da noite vem pra acalmar as palavras não ditas que a gente teima em manter em segredo. Me abraça mais forte e me deixa sentir esse perfume que na sua pele tem um cheiro que é tão seu quanto o toque aveludado da sua mão na minha nuca. Entrelaça os seus dedos nos meus como se eu fosse uma criança medrosa ao enfrentar os perigos da vida. Me pega no colo enquanto eu conto quantos cachinhos rebeldes saem do seu emaranhado estranho e tão fascinantemente lindo. Olha no fundo dos meus olhos com essa cor de mel delirante e me faz entender o mistério do universo sem mencionar uma palavra. Solte sem querer aquele sorriso largo e faça meu coração parar de bater por um segundo pra recomeçar de repente como uma explosão que não cabe no peito. 

Penso tudo isso enquanto olho pra você com um olhar doce e seguro. De alguma maneira que não sei como consigo transparecer tudo aquilo que não sou. Mas essas mentiras que a gente fala pra si mesmo e para os outros é como um mantra, um dia elas te convencem. Convenceram à você, aos meus pais e meus amigos. Convenceram ao porteiro e à faxineira do prédio. Convenceram ao meu chefe e aos meus colegas de trabalho. Mas aqui dentro, quem conhece aqui dentro sabe... Tem coração demais despedaçado, tem desilusão escondida, tem medo camuflado e insegurança espalhada. Tem fragilidade e doçura encapada numa farda de guerra.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Uma garrafa de vinho importada em cima da mesa, taças postas, o jantar exala o cheiro de quase pronto e no som toca um samba antigo daqueles que deixam saudade, melancolia. Um sentimento bom de vivência do agora, do profundo, do verdadeiro. O saber da vida e de aproveitá-la. Uma boa conversa. O lado vazio da mesa. A taça intocada ao lado. A garrafa vazia na mão. E o samba ainda tocando no som.


"Eu tenho saudade
Dos sambas de antigamente
Quando o samba deixava
Uma vaga tristeza
No peito da gente
Não era amargura
E nem desventura
E nem sofrimento
Era uma nostalgia
Era melancolia
Era um bom sentimento."
Paulo César Pinheiro

domingo, 16 de dezembro de 2012

Insanidade

"Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes."
Albert Einstein

Venha e sente aqui do meu lado. Pare de me olhar nos olhos de uma maneira tão profunda, você sabe que não conseguirá enxergar neles o que procura. Pare também de sorrir dessa maneira tão gentil. Essa sua suavidade me traz vontades que não posso compartilhar agora.

Vamos conversar, tome mais uma taça de vinho. Sabe, seu jeito me faz lembrar pessoas importantes do meu passado. Para aqueles que bem me conhecem saberiam dizer o caminho que estou fazendo agora. Do mesmo jeito que também seriam capazes de narrar o final sem grande esforço. Não se sinta tão mal por isso, nós dois sabemos que comparações são inevitáveis. Mas nesse caso, o que me incomoda não são as diferenças e sim as semelhanças.

A gente sempre tem uma esperança não é mesmo? Talvez seja cultural, talvez nós brasileiros sempre esperamos que a história acabe bem sem que necessariamente tenhamos que tomar nenhuma atitude diferente do que já fazemos hoje. E nesse balanço abrasileirado continuo seguindo o que me foi ensinado desde sempre: a esperar. A esperar por pessoas diferentes, com atitudes diferentes e que irão colocar sentido em tudo que você faz. A esperar que o mundo melhore, que as pessoas sejam mais simpáticas umas com as outras e que a gente possa enfim dançar livremente pela rua sem precisar ser julgado ou rotulado.

Entende o que estou dizendo? A verdadeira esperança de mudança começa de dentro e não de fora da gente. O que ainda sim, não me faz parar de odiar esse seu péssimo vício de fumar e querer te modificar inteira por isso.

Foi preciso mudar de país, voltar pra origem novamente, mudar de emprego, mudar de amigos, mudar de cidade e de casa pra entender tudo isso. Aos poucos a gente entende que não adianta mudar o entorno se a essência continua a mesma. Não adianta tentar mudar os gostos se a paixão te chama pra um único lugar. Não adianta colocar um sorriso no rosto se por dentro é só tristeza.

Tenho percebido isso tudo aos poucos e inconscientemente. É como se uma criança pequena após levar um choque com o dedo na tomada, finalmente, entendesse que, talvez, precisasse mudar de brincadeira. O problema é que eu precisei levar inúmeros choques até perceber que independente de quantas vezes eu tentasse, o resultado seria sempre o mesmo.

Você, de todos os choques que levei, foi o que mais me surpreendeu e o que menos quis. Tomei o choque, contudo, quase por transitividade, por passividade, ainda que já ciente de tudo que disse.

Depois do susto, como num passo só me levantei e hoje entendo que você faz parte do padrão que sempre segui. Do vai e volta rodopiante de histórias complicadas que sempre me levou a sustos e arranhões. Que ainda que eu saiba de tudo isso que estou te falando, continuo esperando que aquela tomada um dia se torne complacente com a minha tristeza e não mais me machuque.

Encha mais uma taça de vinho para mim. Vamos celebrar a minha insanidade.


quarta-feira, 7 de março de 2012

8 ou 80

Faz tempo que não escrevo. Acho que perdi o jeito, perdi a dor incessante no peito. Não. Acho que não perdi. Me anestesiei. É estressante sofrer tanto sempre pelas mesmas coisas mudando sempre atores e personagens. Tem coisas que são tão intrínsecas à sua personalidade que você tem que escolher: ou morre de agonia, ou esquece. Decidi esquecer o meu desespero de tudo, a minha afobação descontrolada, minha vontade de engolir o mundo só pra mantê-lo pra sempre dentro de mim. Me descobri mais calma, mais serena, mas também mais apática, como alguém que parou de correr e agora espera tediosamente o ônibus passar, se passar.

Mas eu não gosto desse novo eu, dessa nova pessoa que prefere não desejar pra não se contorcer depois na espiral de ansiedade. O que me fez descobrir que não existe uma zona de conforto pra mim, assim como não existe o meio termo das coisas. Se existem, ainda não consegui encontra-los, nem dentro nem fora de mim.

Dizem que estar fora da zona de conforto é a melhor situação para se estar pois é nela que você busca incessantemente mudanças, melhorias e evoluções para sua vida. Bom, deve ser por isso que estou sempre rodopiando feito um pião sem rumo, procurando novos lugares, pessoas e coisas novas pra viver sem nunca encontrar a razão ou algo que cesse essa vontade.

Dentro desse ciclo 8 ou 80 da minha vida, decidi que não quero ser o 8 e enquanto eu não conseguir achar outra saída, serei pra sempre 80. Eu quero amar demais e descontroladamente até que meu coração se sinta amado o bastante pra se sentir sereno, quero viver intensamente até que a mais calma rotina seja tão completa para mim que as mais banais atividades me satisfaçam. Quero viajar de canto a canto do mundo até que algum lugar me acolha tão bem que eu não sinta a necessidade de estar em nenhum outro.

Estou querendo muito e pra sempre. Estou querendo quase tudo e ao mesmo tempo. Percebo então que já sou 80 de novo e que a montanha russa de ansiedade já voltou a rodar no meu estômago. A dose de anestesia acabou e agora as dores do mundo voltaram para me dizer que é assim que tem que ser. Intenso, dolorido e, de um certo modo, muito mais prazeroso.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Maktub

Faz dias que ando me sentindo mais leve. Desde que me entendo por gente sempre carreguei o mundo nas costas e a culpa no coração. Sempre, por mais que os fatos tenham ocorrido por um milhão de fatores em que eu não pudesse fazer nada a respeito, eu conseguia achar uma brecha em que eu me encaixava e dali buscava a responsabilidade de tudo pra mim. Como se o mundo dependesse da minha existência, como se eu pudesse mudar tudo em um único instante.

Tem gente que vive sempre de vítima da situação, sempre acha que é o karma, que não era pra ser, que o horóscopo do dia não estava bom, a chuva atrapalhou, enfim, maktub. E há pessoas como eu, que insistem em achar que poderia transformar tudo em rosas se não fosse a sua enorme culpa de tudo. Preciso dizer que andei muito mal com esse peso nas costas e que, na verdade, ainda não me livrei dele por inteiro, ainda não aprendi a analisar os fatos sem me achar um pouco Deus. Preciso dizer também, que não sou totalmente vítima da situação, que nunca fui anjo e também nunca aprendi a ser menos impulsiva e parar para analisar as consequências dos meus atos. Fiz muita coisa de que me arrependo e de que acho, hoje, que foi desnecessário, mas também fiz muita coisa louvável e que nunca deram a merecida atenção.

O fato é que desde sempre somos analisados, prioritariamente, pelos nossos erros. Não importa se você sempre foi um amor de pessoa, o dia que você pisar na bola com alguém é isso que sempre será lembrado quando alguma discussão começar. Nunca que você mandou flores naquele dia em que ela estava triste no trabalho, nunca naquele dia que você passou a noite no hospital com ele porque a mãe dele estava doente. Mas sempre porque você esqueceu uma data importante porque estava com a cabeça a mil de coisas no trabalho.

E então, pra cada vez que alguém me punia por causa de algum erro meu, eu me punia o dobro a mais. E eu comecei a viver do que não aconteceu, comecei a chorar pelo tempo que poderia ter sido e não foi, comecei a viver de lembranças inventadas. E a cada vez que eu imaginava um futuro bom, eu me machucava mais de culpa por não ter deixado ser, por não ter conseguido construir esse futuro. E isso é um ciclo vicioso. Quanto mais você se pune, mais vive de ilusão e mais se culpa.

Passei muito tempo assim, me fazendo de Deus, querendo mandar no universo e nas situações, tentando reverter situações irreversíveis e piorando tudo cada vez mais. Até que alguém um dia me deu um tapa na cara e uma sacodida da consciência. E, sem ao menos saber de um milésimo da minha vida, me disse pra ser menos pretenciosa, pra parar de achar que o mundo gira em torno do meu umbigo e que eu não tenho o poder de mudar o universo. Que as coisas acontecem por fatores que as vezes a gente desconhece e que não dá pra manipular tudo.

Apesar de ter ficado muito furiosa com o comentário e ter saído com fogo nos olhos, finalmente entendi o que me foi dito. Finalmente compreendi que a vida é uma via de mão dupla, que as nossas ações possuem impacto sobre os acontecimentos mas são apenas mais uma das tantas variáveis. Que eu posso controlar o que falo, mas não posso assegurar o que vai ser ouvido.

Estou me sentindo mais leve. Por que a vida depende de mim e de você e isso é, simplesmente, maravilhoso.

domingo, 27 de março de 2011

A mochila

Eu tenho uma mala pra arrumar e muita coisa pra colocar lá dentro. O tempo é curto. É quase hora de ir e não tem nada pronto ainda. Eu adoro esse sentimento do novo, ao mesmo tempo que me assusta ter que deixar coisas pra trás. Tem gente me apressando, e o relógio não para de me dizer que o tempo está acabando. E a mochila é pequena demais. E meu coração grande demais.
As minhas costas estão cansadas de carregar tanto peso. Eu não conseguiria aguentar o peso dessa mochila sobrecarregada de novo. Tira tudo lá de dentro. Algumas coisas terão que ficar.
Não, não é fácil pra mim escolher entre a minha calça velha favorita e uma novinha em folha não tão bonita assim. Também não é fácil deixar pra trás um frasco de perfume velho que eu ganhei de presente da minha avó quando fiz 15 anos.

Mas é que o tempo, o tempo está me dizendo pra correr, pra me apressar por que tem tanta emoção por vir e entenda, se for pra carregar essa mochila sozinha de novo, eu prefiro começar a viagem com ela vazia, por que, eventualmente, ela vai acabar cheia de novo até que um dia eu precise esvaziá-la outra vez ou alguém me ajude a carregá-la.

E que nada, nada seja por acaso.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Que seja doce.

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
Engenheiros do Hawaii


Eu me lembro de sentar na varanda de casa nas tardes quentes pra brincar e de como era gostoso sentir o frio da cerâmica em contraste com o calor que sempre fazia. Me lembro de pular corda, elástico. Também me lembro de como isso sempre me rendia alguns machucados e esfoladas. Me lembro de sair correndo no recreio da escola atrás dos meninos que sempre puxavam o meu cabelo. Me lembro de amarrar o cabelo com uma presilha em forma de borboleta. Me lembro de ter uma tiara de florzinhas que brilhava à luz do sol. Lembro do cheiro de bolo de cenoura da minha tia e de como eu sempre comia a cobertura primeiro e depois jogava o resto para o cachorro. Me lembro de passar tardes recolhendo frutos e folhas na casa da minha madrinha pra cozinhá-las depois nas panelinhas de ferro que eram da minha mãe. Lembro de ver inúmeras vezes o mesmo filme de um cachorrinho que saía da fazenda e ia pra Las Vegas, lembro também que naquela época pensava que Las Vegas era uma cidade perto de Uberlândia e que um dia cheguei a pedir pra minha mãe me levar lá. Lembro de um natal pedir pra minha mãe uma avó de presente e depois vê-la chorar sem parar sem entender o por quê. Lembro de ter medo de subir em árvore e mesmo assim subir todas elas só pra provar para os meus primos que eu não era uma menininha medrosa. Lembro de morrer de medo de andar de cavalo, lembro de quebrar um ovo choco na minha cabeça sem querer enquanto estava colhendo ovos no galinheiro com a minha prima. Lembro de acordar cedo na roça e sair correndo pro curral com um copinho na mão e o Toddy na outra esperando o Leite quentinho que meu avô tirava toda manhã. Lembro de fazer cabo de guerra no meio do curral logo depois de acabar de tomar banho e deixar a minha mãe louca de raiva. Lembro acordar aos domingos as 6 da manhã e ligar a tv pra ver Vovó Mafalda. Lembro de ir no circo do Sérgio Malandro e jogar uma torta na cara do monstro. Lembro de ir no show da Eliana e achar que a Xuxa era bem melhor que ela. Lembro que eu tinha uma bota da Xuxa roxa com rosa, que eu usava todos os dias sem exceção. Lembro que eu fazia coleção de discos de Vinil que iam do Balão Mágico a Sandy e Junior. Lembro de saber cantar todas as músicas. Lembro que as minhas maiores preocupações era conseguir ficar mais de uma semana sem castigo.

Lembro que um dia me disseram que era preciso crescer e que eu já estava virando uma mocinha. Lembro de achar toda aquela história de virar uma mocinha muito chato.

Lembro de tudo isso hoje, com muito mais que nostalgia. Lembro com uma vontade enorme de inocência e pureza. Lembro com uma vontade de recomeço.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Apagou a luz. O abajour no canto do quarto deixava um luz fraca e tremeluzente, quase como uma vela. O vento lá fora batia na janela avisando a tempestade que estava por vir. Deitou na cama, fechou os olhos, escutou o barulho de cada gota que começou a cair na janela. Se encolheu. Era medo, insegurança, era querer tudo e não poder nada.
Querer tudo. Esse era o problema. Tinha gente batendo na porta. Tinha alguém espionando pela janela. Tinha preguiça demais pra levantar pra abrir a janela, escancarar a porta. Está tudo uma bagunça, essa era a desculpa de sempre, apesar de saber exatamente os cantos em que a poeira tinha se acumulado, onde tinham cacos no chão da última briga. Só que cada pedaço daquele quarto era especial. Cada grão de poeira, cada caco de vidro jogado representava alguma parte da vida que ela não queria esquecer. Não é que não podia. Mas é que era tudo grande demais pra ir pro lixo.

Cansou. Andava de um lado pro outro. Era inquietação. A droga da chuva que não parava e não deixava o mundo escutar o grito que ela dava ali de dentro do quarto escuro. Estava errado, era claro que estava. Mas se não dava pra jogar tudo no lixo, talvez desse pra organizar em um canto, tentar parar de agir como uma louca sem entender o sentido daquela bagunça toda. Sentido era claro que tinha, e há muito tempo tinha deixado de ser novidade. Faltava era a vontade de ação. Só que dessa vez era mais que desistir. Era a primeira vez que ela parava pra enxergar os seus defeitos, os seus erros de uma maneira mais ampla, mais significativa. Precisou de uma sacudidela e um tapa na cara. Precisou de uma alergia por causa do pó e um corte na mão. Precisou agir sem pensar, se sentir patética, e envergonhada.

Queria forças, buscava forças. Olhava pro lado e buscava ajuda. Não, nunca conseguiria sozinha, lhe sobrava coração demais e cérebro de menos. As batidas na porta eram cada vez mais fortes, começam a lhe dar dor de cabeça. Era melhor ir ver. Abriu um pouquinho, a luz era tão forte que quase não conseguia ver quem estava ali. Tentou se lembrar de quanto tempo aquele quarto não via uma nesga de luz do sol. O olho foi se acostumando, o calor foi entrando dentro do quarto. Mas era coisa demais pra um único momento. Fechou de novo a porta. Disse um volte mais tarde e se encolheu de novo na cama.

Já era um começo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Eu sou apenas a garota angustiada, de cabeça metralhadora, de tremedeira na existência, de maxilares travados de tanto que dói gostar tanto de tudo. Eu sou apenas a garota que tenta ser amada. E sou profundamente amada por alguns meses, até o garoto segurar firme a minha mão e dizer "nós somos inseguros e queremos uma garota normal". E então eu me pergunto se não deveria lobotomizar meu cérebro pra pensar menos, lobotomizar meu coração pra sentir menos."

Tati Bernardi

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O outro lado da sala

Estava ali, sentado do outro lado da sala e ficava me olhando de canto de olho. Quando não via, eu o encarava e ficava pensando em mil e um assuntos que pudéssemos ter em comum. Então eu passava do lado dele, e ele continuava me olhando. Talvez pedindo um sorriso, um "Oi. Tudo bem?", ou qualquer coisa normal que qualquer outra pessoa normal faria. Mas, eu em toda a minha sensualidade, abaixava a cabeça e fingia que não via. Bela atuação, senhora do charme e da conquista. Você, essa boca enorme e sua falta de vergonha com tudo que não deveria, se torna em um minuto uma menina de 12 anos assustada em não saber o que fazer quando alguém está jogando charme pra cima de você.

Talvez eu devesse passar lá do lado agora e jogar um sorriso. É, e depois disso ele vai ter a certeza que eu sou ou louca, ou totalmente bipolar. E você, menino do outro lado da sala de topete loiro, talvez pudesse dar uma maozinha nesse desastre de sedução que sou eu. Talvez você pudesse puxar o assunto qualquer dia desses nos intervalos, na fila do café. Talvez você dê sorte e o tempo esteja ruim, assim poderemos nos lamentar de como a chuva é chata, de como são pedro é injusto. Talvez depois disso eu fale do dia em que te encontrei na boate e quem sabe você me diga que vai lá semana que vem. Mas enquanto isso, eu vou te olhando mais um pouquinho, enquanto você me acha mais estranha a cada dia. Não é que eu seja estranha. É só que eu não sei o que fazer quando o novo me chama a atenção.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ao velhinho do Natal

Querido Papai Noel, eu sei que já é um pouco tarde pra fazer o meu pedido, mas como eu sei que o senhor sempre atende a todos os pedidos, resolvi me dar essa chance. Antes de dizer o que eu quero nesse natal, gostaria de dizer que eu não fui uma boa menina esse ano. Não me comportei direito, não me alimentei direito mais da metade do ano, fui teimosa em quase todos os meus atos e mesmo assim quase nunca assumi meus erros. Fiz um monte de besteiras e machuquei muitas pessoas, a maioria das feridas que deixei, o tempo se responsabilizou de curar. Bom, mas como tudo que vai um dia volta, eu não seria excessão. Eu paguei por tudo que eu fiz e por todas as decisões que eu tomei. E é isso que me faz, com toda humildade escrever essa carta. Noel, eu acredito que você possa trazer nesse seu trenó cheio de presentes, um pouco de luz e paz pra cada lar, pra cada coração. Então é isso. Eu não quero presentes, não quero dinheiro. Eu quero paz. Quero que nesse natal você seja capaz de trazer a minha paz, pra que em 2011 eu não seja um furacão destruidor, como sempre fui. Que a paz seja o suficiente pra que eu não seja de novo destruição pra alguém, e nem pra mim mesma.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tô com saudades do peso da mochila nas costas, do mapa na mão. De dormir em aeroporto, em hostel bizarro. To com saudade das pessoas que deixei pra trás com o coração na mão e uma promessa de volta. To com saudades do resto do mundo.

E se Papai Noel pode existir, e mais, se ele pode nos dar o que desejamos de natal, esse natal eu peço que me transforme em milhares, pra que eu possa matar a saudade que eu sinto de cada canto.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Convencibilidade

E se fosse verdade? Bem, precisamos assumir que não seria assim lá uma novidade. Não é o tipo de coisa que você nunca imaginaria. Aliás, pra te falar a verdade é uma coisa que eu sempre imaginei. Mas é que a gente sempre arruma desculpas pra poder provar o contrário, pra dizer que não é verdade e que no fundo tudo não passa de um mal entendido. Besteira! Qualquer dia desses você ainda se pega desolada, com a mentira nas mãos, sem saber o que fazer com ela e com o que ela fez dentro de você. Então, a farsa que você criou pra se convencer caiu e sobra você, com a sua cara de tacho e seu discurso de vitoriosa sobre a situação.
De certo modo, seria um jeito mais curto de mudar de rumo, de começar novas histórias, de me reinventar. Mas não vou mentir e dizer que isso não me incomoda. Pra falar a verdade sempre achei tão absurdo e ao mesmo tempo tão coerente.
É a explicação pra tudo aquilo que nunca fez sentido, mas ao mesmo tempo é frustrante demais pra me convencer fácil assim.
Não sei, mas tenho a impressão que quanto mais eu penso, mais eu me convenço e mais eu quero negar. Acho que eu nunca vou perder essa incrível capacidade de me fazer sempre dois extremos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Tira tudo. Tira a blusa, o short e o tênis. Tira a máscara e essa capa que você carrega pra se proteger. Fique nú e de alma aberta pra que o mundo possa te enxergar, pra você poder ser mais do que é hoje, mais feliz e realizado. Pra que possa sair por aí mostrando o que tem de mais belo e também de mais escabroso. Eu quero ver os seus defeitos tão profundamente quanto você os sente agora. Quero ver também a beleza que você não transparece.
Isso, chega mais perto. feche o olho e sinta a liberdade.
Sinta como é viver aqui do lado de fora.