Passei esse fim de semana inteiro sentada na frente do computador, conversando um milhão de abobrinhas com meus amigos de intercambio, que estão hoje cada um em um canto do mundo, rindo horrores e colocando fotos e vídeos hilários no grupo comum que foi criado. Foi tão natural e simples passar a tarde ali sentada abrindo foto a foto de cada álbum e comentando cada uma com todos eles do mesmo modo como a gente fazia antes, que cheguei mesmo a pensar por alguns minutos que eu ainda estava dentro do meu micro quarto e que minutos depois minha colega de quarto ia irromper pela porta me apressando pra me arrumar e sair.
Foi tanta nostalgia que quando desliguei o computador fiquei achando que me faltava alguma coisa. Olhei pro lado e não reconheci nada daquilo, não me vi pertencendo a nada, nem a lugar nenhum.
Muito estranho esse sentimento de que não se pertence a lugar nenhum. O que, no meu caso, me causa um certo sentimento de culpa já que era de se esperar que eu me sentisse confortável dentro da minha própria casa, ao lado dos meus familiares. Pelo menos é o que se espera de todo bom filho. Não me entendam mal, eu amo meus pais e minha irmã e adoro a companhia deles, não sou nenhuma Suzane Richthofen e também não vou dizer que não sentia saudades de casa quando estava longe. Mas era uma saudade amena, suave, "uma saudade querendo querendo, querendo ir e querendo ficar".
Tenho hoje uma vontade absurda de mudança, de me sentir de novo a cada mês deslumbrada com alguma novidade. Vim a descobrir que se eu já não gostava de rotina antes de Portugal, agora ela é quase insuportável. Vim a descobrir também, que algumas das nossa vontades são imaturidades, ou simples fases, outras vêm da nossa camada mais profunda, do seu interior. É o que você é e nunca vai poder mudar. Passei muito tempo achando que relacionamentos longos eram perda de tempo e que nunca iria construir um, mas hoje sinto falta de alguém para compartilhar coisas simples do dia a dia. Do mesmo modo eu tinha a vontade de conhecer o mundo, de saber como é viver sozinha, de sentir a liberdade no mais alto grau que alguém na minha idade poderia experimentar e achei que, assim como todas as minhas fases, depois que voltasse do intercâmbio essa vontade também iria passar.
Para desespero da minha mãe, não era só uma fase, ou se é ainda não passou, e eu ainda sinto que não posso morrer sem colocar um dedo mindinho que for em alguns lugares do mundo. Digo para o desespero dela, pois ela sempre me achou um jogo perdido. Do mesmo modo que era de se esperar que eu me sentisse confortável de volta em casa, também era de se esperar que como qualquer mulher, meu sonho fosse encontrar o amor da minha vida, casar, ter filhos e ser feliz para sempre. Não sei o quanto disso ainda faz parte dos sonhos da maioria das mulheres de hoje em dia e o quanto disso já foi dissipado pelo pensamento feminino moderno, mas não é assim que eu me sinto. Enquanto a minha irmã tem horror em pensar em se casar depois dos 20 anos, e tem como o maior sonho ter um filho, eu, com meus 22, tenho como maior sonho ter uma casa só pra mim, um quarto com uma cama gigantesca e com uma parede inteira pintada com o mapa mundi onde eu colocarei fotos de cada lugar que eu já visitei e irei visitar.
Não quero uma casa enorme, com jardins, piscina, carro importado (claro que também não iria reclamar se tivesse). Quero um lugar seja o meu refúgio, um lugar só meu, familiar, que me mostrará que o desconhecido é sempre bom, mas voltar para algum lugar é essencial, que ele seja o meu ponto de equilíbrio. Quero uma viagem por ano, no mínimo, para algum lugar distante e desconhecido. Quero conhecer pessoas que falam outro idioma, que vivem outra realidade, com outra cultura, outros costumes, outros gostos. Que me ensinem músicas e danças novas, a gostar de comidas apimentadas e de saber apreciar um bom vinho.
Quero o mundo na palma das minhas mãos e sinto que querer isso é tudo que não esperam de mim. Penso todos os dias que esse meu desespero de tudo um dia vai passar, mas penso com pesar. Não sei o que dói mais: querer ir, ou querer ficar.
